O presente post, tem como fonte o livro espetáculos populares do nordeste de Hemílio Borba Filho, e constitui-se de um resumo do capítulo que trata do bumba-meu-boi. O livro trata de uma versão do festejo praticado em algumas regiões do nordeste.

O espetáculo do bumba-meu–boi constitui-se de uma forma de diversão dramática, que se colocam entre a dança, o jogo, a festa e o teatro. É anti-ilusionista, apresentando dissociações entre personagens e intérpretes e um sentido não realista.

O festejo é uma soma de reisados*, que dada a sua curta duração, são apresentados em série e sua estruturação obedece um único critério fixo: O reisado final é o bumba-meu boi.

Praticado em todo Brasil, do Amazonas ao Rio Grande do Sul, o “brinquedo” apresenta diferentes nomes: Boi-Bumbá, Boi-Mamão, boizinho, Cavalo-Marinho, Boi de Reis, Reisado Cearense, etc…

Com origens em autenticas formas dramáticas, como o teatro grego, a comédia dell’arte, o teatro popular latino e o teatro elisabetano, o espetáculo é supostamente, de raiz pernambucana, tendo surgido durante a colonização das terras do Piauí.

Com a comédia dell’arte, especificamente, os pontos de ligação são muitos, desde do uso de roteiros (canovacio na comédia popular italiana) em torno do qual são improvisados os diálogos e as lazzi, aos personagens que se assemelham muito: O Doutor, O Fanfarrão, Os Briguelas, os Palhaços e o Arlequim, este último, embora com funções difrentes, mantém o mesmo nome.

A palavra bumba, que nomeia o festejo, surge de uma corruptela de “zabumba” ou “bombo”, mas seu sentido está mais precisamente ligado a ” bordoada, pancadaria”. Isto se deve ao fato de que os divertimentos populares, como mamulengo e o bumba-meu-boi, giram em torno das pancadas, numa reminiscência das velhas farsas populares, desde a comédia dell’arte até a
comédia pastelão do cinema mudo, passando pelas pantomimas de circo.

O bumba-meu-boi, na sua formação, lançou mão de todos os elementos do romanceiro, da literatura de cordel, das toadas de pastoril, de canções populares , de louvações, de loas, de tipos populares, de assombrações , do bestiário, a tudo acrescentando a improvisação dos diálogos e as danças, na fixação do mais importante espetáculo popular, num sincretismo artístico-folclórico-religioso dos mais completos.

Representado geralmente durante o ciclo de natal, o bumba-meu-boi associa-se às representações que, desde a Idade Média, são realizadas na ocasião e nesse sentido traz reminiscências das manifestações européias, tendo inclusive, muitos personagens em comum (obviamente regionalizados).

Na verdade, festas de bois existem, há milhares de anos, em diversas culturas, quer de origem pastoril ou religiosa como o Boi Ápis, a vaca Ísis, o touro Mnéris, o boi Geroa, o boi de São Marcos, o touro Guaque ou Huaco, etc…

O bumba-meu-boi, como espetáculo popular autêntico, é praticado pelo povo que não o enxerga como teatro. Nunca diz-se “vou representar hoje” mas “vou brincar hoje”, empregando, ainda que subconscientemente, a palavra brinquedo no sentido de jogo, que é designação medieval para o ato de representar.

A representação é feita em arena, com o público formando uma roda em volta da ação. Roda esta, que muitas vezes é aberta às custas de bexigadas do Mateus ou esbarrões e correrias da Burrinha ou do Boi, até que se libere o espaço suficiente para a representação continuar. Alías, nesse, como em outros espetáculos populares, todos participam do “brinquedo”, numa fusão completa de assistentes e atores.

A função dura, normalmente, oito horas(geralmente das 21:00 ás 5:00hs). Esse longo período de duração deve-se mais à repetição das palavras, cantos e passos do que ao desenvolvimento das cenas. Durante toda a representação bebem os “atores/brincantes” e bebe o público, numa variante atual das comemorações de Dionísio.

Ainda um outro elemento de aproximação com os festejos dionisíacos é o uso da máscaras. Num Boi de Natal, os figurantes usavam máscaras de bode (animal que se identifica com o deus), ou, no mínimo, lançam mão de maquiagem bem carregada(carvão ou farinha) que se assemelha à mascara. Esta ainda tem a função- como no teatro grego ou brechtiano – de utilizar um menor número de intérpretes em vários personagens, pois o bumba-meu-boi tem perto de 48 tipos diferentes.

Não há atrizes na representação. Os papéis femininos são defendidos por homens travestidos. A única exceção é feita para a pastorinha, geralmente uma menina ou mesmo uma adolescente, mas nunca uma mulher feita.

Outro elemento feminino usado no espetáculo é a cantadeira, sentada ao lado da orquestra composta de zabumba, ganzá e pandeiro. É a rigor um elemento externo, mas é constantemente chamada por Mateus, a mando do capitão, para cantara as chamadas e saídas dos personagens.

O “brinquedo” é assexuado, mas o dinheiro, como a cachaça, é elemento constante. Cada ator faz sua coleta através de piada, criando uma representação à parte na caça do dinheiro.

Dinheiro, aliás, é uma idéia fixa no bumba-meu-boi. Dinheiro que se arrecada. Dinheiro que é mencionado em todas as cenas (sendo o pagamento realizado com bexigadas), etxc…

A pobreza da região influi na “brincadeira” tanto na sua estrutura como no enredo, sendo eliminados alguns personagens cuja confecção é mais dispendiosa.

Os personagens do bumba-meu-boi podem ser classificados em três categorias: Humanos, fantásticos e animais.

Personagens Humanos:

Capitão Boca-Mole – É o dono da festa e patrão de Mateus e Bastião. No inicio vem a pé, mas logo “monta” em seu Cavalo-Marinho (arcabouço de cavalo com um buraco no meio).

Mateus e Bastião- Negros da fazenda, trazem em suas mão bexigas de boi cheias de ar, com as quais espancam os demais personagens, à sua saída.
Bastião é filho de Mateus.

Arlequim- Sempre ao lado do capitão, faz as vezes de pajem.

Catirina – negra despachada e cantadora, que em alguns bumbas, é mulher de Mateus.

Pastorinha – Dona do Boi.

Tunqunqué- O Valentão que termina desmoralizado.

Engenheiro – Que com seus auxiliares, vem medir as terras do capitão.

Padre – Que faz casamentos e confissões.

Doutor Penico Branco- médico que vem tratar do boi

Mané-Gostoso – homem em pernas de pau

Entro outros como: Zabelinha, Sacristão, Fiscal, Mestre domingos, Mestre do Tear, Romeiro, O Matuto do Fumo, Queixoso, Dona Joana, Caboclo do Arco, Capitão do Mato, Barbeiro, João Carneiro, etc…

Fantásticos

Caipora- Gênio Malfazejo da mitologia indígena.

Diabo- Que leva aos infernos o padre e o sacristão.

Babau- Caveira de burro
Mané Pequenino- Boneco gigante

Jaraguá- Fantasma de cavalo

O-morto-carregando-o-vivo – ator mascarado com um tronco de boneco à frente e os membros inferiores trás, dando a ilusão do inanimado carregar o animado.

ANIMAIS

Ema, a Burrinha, a Cobra, o Sapo, o Pinica-Pau e o Boi.

* “representações cantadas, consistindo de um só episódio, que contém, sinteticamente, a significação completa do assunto”